quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Gentileza

No auge da evolução tecnológica e mesmo assim, sou lembrada, de tempos em tempos, das consequências que resultam de falhas da tecnologia. Um lembrete desses aconteceu durante uma falha no sistema elétrico que deixou apagado um sinal de trânsito na cidade.

Me lembrei de um cruzamento na cidade de Guangzhou, China, onde o movimento de carros é enorme, mas flui eficientemente sem nada dos nossos modernos sinais de trânsito. Os carros que vinham em uma direção tinham passagem livre e depois, por meio de algum tipo de gentileza mútua nas entrelinhas, de repente, um fio de carros vindo da outra direção ganhava a passagem. Assim seguia o fluxo, um fio de carros e caminhões, mais ou menos 40, de uma direção e depois um fio de carros e caminhões vindo da outra direção.
Mas, o resultado de um apagão de luz na cidade, acabou em um engarrafamento desesperador. Isto, porque nós que estamos acostumados com os benefícios de sinais de trânsito modernos e automatizados, não sabemos o que fazer sem eles. Sem o sinal para controlar o fluxo de trânsito, cada carro esperava no cruzamento a tomar sua vez para atravessar, um por um. Houve uma grande retenção, já que levava bastante tempo para um só carro passar pelo cruzamento e em seguida fazendo rodízio pelas demais quinas do cruzamento.
Na verdade, era bem engraçado observar o sistema moderno daqui falhando e se atrapalhando comparado com a gentileza e forma cortês do trânsito se organizar em Guangzhou em 1997.

Quem sabe no próximo Natal eu dê de presente um lampião para alguns amigos - presente que reflete resistência à dependência da tecnologia (não é o meu caso) - mas um lampião lhes dará luz quando (vai acontecer um dia) houver um apagão na cidade.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

AS ESCOLHAS DA NOSSA VIDA, por Ana Paula Padrão.

"A vida real não é feita de conquistas efêmeras, mas de relações que estarão lá para sempre. Marido, amigos, família, são eles que vão ficar do seu lado quando a empresa onde você trabalha não fizer mais parte do seu dia-a-dia.
Eu, como quase todas as mulheres da minha geração, passei por uma fase de dedicação total à carreira. Seguimos à risca os conselhos de nossa mãe:
- 'Seja independente, não dependa de marido!'.
Mas, para conquistar nosso espaço relegamos o emocional a segundo plano. Todas queríamos vencer como os homens, ter poder como os homens. Não me arrependo, sinto orgulho do que construí. Porém, se tivesse que dar um conselho a você, diria: 'Vá com calma!'.
Hoje a realidade é outra. Não precisamos deixar nosso universo para adotar o deles. Dá para incorporar o que há de melhor nos dois. E, principalmente, ouvir nossa voz interior, que é o melhor guia. Foi o que fiz quando, depois de 18 anos na Rede Globo, mudei para o SBT. Até então, não conseguia ir a um aniversário de amigos, nem jantar com a família. Não via meu marido, Walter, a semana inteira! Chegava em casa às 2 da manhã; ele acordava às 7. Para que a gente se comunicasse, até comprei um quadro branco e instalei no quarto. Aí, anotava:'Amor, não esquece de fazer tal coisa. Beijo, saudades'. O Walter lia, apagava e escrevia a resposta. Na sexta, ele me esperava e íamos deitar às 4 da madrugada.
Conclusão: o sábado começava às 2 da tarde e, evidentemente, acabava num piscar de olhos. Isso quando eu não tinha plantão e passava o dia no Rio de Janeiro.
Durante dois anos, tentei negociar um horário melhor. Até que cheguei ao limite do meu coração e repensei minha carreira.
Você deve estar se perguntando : 'Como ter coragem para largar um emprego em troca da felicidade?' Bem, é preciso confiar na tal voz interior.
Nesse aspecto, tenho segurança, aprendi a acreditar na minha capacidade de trabalho. Mas não pense que não fiquei tensa! Chorei muito, tive noites de insônia, pois gostava do que fazia. Precisei da força do meu marido, que deixou claro: me apoiaria em qualquer escolha.
Acho que sem o Walter não teria conseguido ir em frente. Quando penso que só nos conhecemos há 3 anos... queria ter passado A VIDA ao lado dele.
Nossa história já começou especial: em abril de 2002, entrevistei-o para o Jornal da Globo e, depois da gravação , conversamos sobre trabalho, viagens. Contei que na semana seguinte ia para a a França, trocamos cartões e só. Quando já estava em Paris, eis que o telefone do hotel toca. Perguntei: 'Você veio para um congresso? 'A resposta: 'Não, vim te convidar para jantar'. Casamos quatro meses depois. Sei que uma relação assim não brota em cada esquina. Também, hoje há um desencontro de papéis. Batalhamos para ter o que era de domínio masculino - e eles ficaram perdidos. Acredito que num relacionamento bem-sucedido há o meio-termo. Mas, para isso acontecer, a mulher deve deixar o homem participar do seu universo. E GOSTAR disso!
Meus próximos planos? Me dedicar ao novo emprego sem abrir mão da parte pessoal.
Ainda gostaria de ser mãe, sim, mas decidimos esperar um pouco. Já passei por quatro longos tratamentos para engravidar. Em um deles, perdi o bebê na oitava semana de gestação. Os médicos disseram que o meu horário de trabalho era um dos grandes obstáculos. Claro que, se acontecer, esse filho será muito bem-vindo. Mas o importante é que estou tão feliz!
Tomara que você também consiga achar o seu ponto de equilíbrio e, assim como eu, não tenha medo de lutar por seus sonhos."
A JORNALISTA É CASADA COM WALTER MUNDELL, COM QUEM, AGORA, DEPOIS DE TRÊS ANOS JUNTOS, VAI AO CINEMA À NOITE.